E
|
ra no tempo
dos grandes eventos, e o pombo Jeremias estava prestes a perder sua moradia. Ele
vivia embaixo da Perimetral, um viaduto que cortava a Zona Portuária da cidade
do Rio de Janeiro. Jeremias, um pombo de penas acinzentadas. Se fosse branco,
não moraria na rua, seria garoto propaganda, um símbolo do belo e da pureza. Se
preto fosse, exótico, raro. Mas nosso herói era a mistura das raças, sem
definição. Classificaram-lhe pardo, era nada. Jeremias não aguentava mais a vida
estressante da cidade e há tempos observava as gaivotas que pescavam pelas
proximidades da Ilha das Cobras. Morava em um vão entre o concreto e a
estrutura metálica do viaduto, precisamente no trecho que cruzava o 1º Distrito
Naval. Dali, contemplava o mar e os mergulhos acrobáticos de suas primas. Em
suma, estava decidido a levar a vida como uma gaivota.
Vez
ou outra, o pombo era motivo de chacotas por parte de seus colegas. Com razão:
Jeremias era dado a ideias estranhas, não condizentes com o mundo dos pombos.
Durante uma conversa com seus colegas ele afirmara que a solução para certos
problemas seria a vinda do papa uma vez por ano à cidade maravilhosa. Ninguém
entendeu a sua teoria, mas não havia o que entender. Um pombo que deseja viver
como uma gaivota não merece crédito. Não merece atenção. Não merece ser
compreendido. Se alguém opta por ser diferente da maioria, deve aguentar as consequências.
Assim é o mundo. Não somente o dos pombos.
É
bem verdade que Jeremias não fazia questão de ser compreendido. Vivia isolado
dos demais a maior parte do tempo. Gostava mesmo de treinar a pontaria,
lançando seus dejetos nas cabeças dos transeuntes. Uma diversão. O único
momento do dia em que se juntava aos companheiros. Fora isso, pensava em como
ser aceito pelas gaivotas. E meditava.
Com
efeito, não seria tarefa fácil a adaptação a outro estilo de vida. E ainda
seria preciso coragem. Muita coragem para mergulhar sobre o peixe certo no
momento certo.
Ele,
ele queria ser como os outros pombos. Porém, compreendia que era inútil lutar
contra sua natureza. Era o estranho no ninho porque pensava diferente. Mas,
afinal, junto às gaivotas continuaria um estranho. E hesitava, e decidia, e
pensava, e desistia, e tornava a decidir: serei gaivota. Mas, antes, preciso
ter com Doroteia.
Peço desculpas por não ter
mencionado a pomba Doroteia. E agradeço ao Jeremias por impor sua vontade. Ela,
a pomba por quem é apaixonado, causa toda essa confusão nos pensamentos de
nosso herói. Se não fosse pelo amor, ele já estaria entre as gaivotas. Quem
sabe? Sejamos francos, Doroteia não tem culpa de nada.
– Doroteia, você tem um minuto?
– Diga,
Jeremias.
–
Amanhã, sem falta, falarei com as gaivotas.
– Ainda
com essa ideia? Você acha mesmo que as gaivotas aceitarão ter um pombo maluco entre
elas?
– Não
fale assim. Eu penso em desistir dessa empreitada caso você aceite casar-se
comigo.
–
Casar? Se ao menos você fosse deputado, desembargador...
–
Mas...
– Sinto
muito. Eu não quero viver com um pombo que é motivo de chacotas. E será ridicularizado
pelas gaivotas, também, se insistir nessa loucura.
Desde já, sugiro aos leitores que
não julguem a nossa pombinha. Doroteia sempre ouviu os conselhos de sua mãe.
– Se
pensa em casamento, minha filha, junte-se a quem tem poder. Mas você deve avaliar
se o poder é provisório ou permanente. Como saber diferenciar? Vejamos: um
pombo será sempre um pombo se não estiver envolvido com a política, se não for
um grande empresário ou se não conhecer as brechas das leis. O mais poderoso
traz consigo a soma dessas virtudes.
– Mãe,
e o Jeremias...
–
Doroteia! Eu quero o seu bem. Não faça besteira, minha filha.
A última tentativa do pombo seria
convencer a amada a levar uma vida como as Gaivotas.
– Pense
bem, meu amor.
– Não
sou seu amor!
–
Doroteia, não vai demorar muito para a chegada dos gaviões. A promessa é
derrubar qualquer construção que estiver atrapalhando a realização dos grandes
eventos. Você será mandada para um abrigo bem longe daqui, meu amor.
– Não
sou seu amor.
– Perto
do mar, com as gaivotas, seremos felizes, levaremos uma vida saudável, longe
desse inferno de cidade.
– É
inútil, Jeremias. Aconselho você a ficar também. Para quem não pôde deixar seu
imóvel, os gaviões prometeram o aluguel social.
– E
você acreditou, Doroteia? Nos gaviões!
Com efeito, é difícil saber quem dos
dois é mais inocente. Ele, com a esperança de uma nova vida. Ela, a espera do
legado prometido.
O bulício foi tanto que, não sabemos
como, o intento de Jeremias chegara aos ouvidos das gaivotas. Pois as pomposas
aves brancas já haviam mandado uma proposta de votação aos gaviões. Todos se
encontravam no plenário. E nada era decidido. Após acusações, acordos e mais de
21 horas de discussões – sabe-se que foi a mais longa sessão do Parlamento – o
pombo teve o direito à voz.
– Senhores,
senhoras, membros deste Parlamento. Peço que analisem minha situação. Tenho uma
vida estressante, sempre buscando migalhas pelo chão. Acredito que tenho o
direito de comer peixe fresco. Por que não?
E seguiram muitos protestos da
oposição.
– Eu
não aguento mais ouvir a sua voz. Já lhe ouvi umas dezoito vezes! Isso não se
faz, pombo! Deixa disso!
Mais
uma pausa. Muitos gaviões debandaram. E quando chegou o momento crucial da
votação, não havia parlamentares suficientes. Ficou para o dia seguinte.
Porém, um acontecimento até então
impensável ocorreu: os pombos saíram da inércia e foram às ruas protestar.
Cansados e incomodados com o próprio silêncio, reuniram-se em manifestações
pelas mais variadas reivindicações. Alguns comentavam que a coragem do pombo
Jeremias foi o estopim para o início de tanta revolta. Outros diziam ser o
acúmulo de promessas acerca de certo legado o real motivo. Este, um perfeito
simulacro, sempre contribuindo para os dominadores e, obviamente, nunca para os
dominados. As elites pensantes tomaram iniciativa, é verdade. Mas logo os mais
simples juntaram-se ao movimento. A pressão foi grande e os parlamentares
retornaram ao Congresso para mais um teatro. Só que agora era preciso um
desfecho, uma cena de fim de ato.
Os protestos demoraram a cessar, mas os gaviões
conseguiram manobrar. Perceberam que a força e a violência não seriam
suficientes para calar os pombos. E optaram por um plebiscito. Os pombos e as
gaivotas seriam ouvidos e decidiriam se Jeremias poderia viver um novo estilo
de vida ou não. Houve críticas até mesmo por parte dos gaviões, mas, no fim das
contas e de alguns acordos, a maioria resolveu que Jeremias tinha este direito:
viver como uma gaivota.
Nosso herói iniciou seu treinamento
na pesca. Sobrevoava a baía de Guanabara, procurando pelo seu primeiro peixe.
No entanto, a gaivota que o acompanhava e o instruía, não permitia o mergulho.
Ainda era cedo.
– Você
precisa avistar o peixe, subir um pouco, mirá-lo, e descer com as asas
fechadas, jogando-se na direção da refeição. É preciso treinar mais esse
sincronismo.
– Mas
como eu saberei quando se tratar de um peixe?
– Sua
visão ainda não é treinada para identificar um peixe. Você levou toda a sua
vida mirando em
migalhas. Não se aprende assim, da noite para o dia.
– Tudo
bem. Mas você não poderia me dar uma dica?
–
Concentre-se em algo prateado. Quando vir o reflexo prateado abaixo do espelho
d’água, jogue-se contra ele.
Jeremias sorriu. Finalmente conseguiria
seu primeiro peixe. Sua primeira refeição do mundo das gaivotas. E já no
segundo dia de treinamento avistou aquele brilho do qual falara seu instrutor.
O coração acelerado, pensou em Doroteia, na possibilidade de dividir seu
primeiro peixe com a amada, o pedido de casamento. Subiu, subiu, subiu, e pôs-se
num mergulho triunfal, jogando-se contra o pratear que lhe ofuscava a visão. No
alvo!
– Belo
mergulho! Exclamou seu instrutor.
Verdade
seja dita, Jeremias não retornou do mergulho. Sumiu nas águas da baía de
Guanabara. Seu corpo foi encontrado no dia seguinte, enrolado em um saco
plástico, prateado. Enfim, Doroteia sentiu remorso, alguns pombos continuaram a
fazer piadas de Jeremias e tudo voltou a ser como era. E por falar no
Congresso...
Os
parlamentares, em mais uma sessão do plenário, homenagearam Jeremias.
Discutiram acerca da despoluição da baía de Guanabara, da contratação de uma
empresa para a realização do serviço. A partir daí, os discursos inflamaram. Trocas
de acusações, dedos em riste, apresentação de dossiês, um diabo. Houve quem
sugerisse a abertura de licitação para a construção de uma estátua de Jeremias.
Outros sugeriram mais um plebiscito.
Quanto
a Doroteia, sabe-se que foi parar em um abrigo. Lá, para os lados de Santa
Cruz, na zona oeste carioca.

