
Optei por não fazer muitas indicações nas rubricas, pois, dessa forma, a obra fica aberta para a concepção do encenador. Santa Joana das Ideias ou O Mito da Democracia foi encenada pela primeira vez em julho de 2008, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), pelo Núcleo Lítero-Dramático Machado de Assis. E teve no elenco Jullyanne Brito, Rogério Moreno, Dolores Santos, Edwaldo Generozo, entre outros.
Personagens
Joana
Autoridade
Passageiro
Mãe
Demagogia
Peça em 1 ato, inspirada nas excelentes atuações de nossos governantes e autoridades.
“Se não temos outro recurso senão obedecer aos poderosos, então não vale a pena viver”.
José Saramago
“O diabo que entenda os políticos”.
Machado de Assis
“Esta nossa sociedade é absolutamente idiota. Nunca se viu tanta inércia, tanta falta de iniciativa e de autonomia intelectual!”
Lima Barreto
PRÓLOGO
JOANA (Na plateia) – No dia 02 de março de 1945, na praça da Sé, em São Paulo, durante uma manifestação, o povo reivindicava a anistia de presos e exilados pelo Estado Novo. Numa faixa lia-se: “Pode-se enganar a multidão parte do tempo. Poder-se-á mesmo enganar parte da multidão todo o tempo. Mas nunca se poderá enganar toda a multidão todo o tempo”.
PASSAGEIRO – Joana mora em Santa Cruz, bairro histórico localizado na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. Trabalha numa tabacaria da Central do Brasil. Todos os dias, ela faz o trajeto via trem. Uma hora e vinte minutos é o tempo de duração da viagem; se não houver imprevistos no caminho, é claro. Atualmente, Joana se prepara para prestar o vestibular. Ela pretende cursar Filosofia numa Universidade pública.
ATO ÚNICO
CENA I
JOANA (No centro do palco) – Quando eu percebi que sim, que somos enganados todos os dias; comecei a chorar. Chorei alto: já que pagamos impostos para termos serviços a nossa disposição, por que não consigo atendimento nos hospitais públicos? Por que sempre faltaram professores na escola onde estudei? Por que somos iludidos, a todo o momento, com discursos sobre educação e democracia? Então, percebi os passageiros do trem censurando-me com seus olhares. Dentro do trem eu sou mais do que Joana. Sou Joana das ideias. Dentro do trem, penso de uma forma que fora dele jamais pensaria. Curioso. Certa vez, na tabacaria onde trabalho, eu disse a uma senhora muito abatida que parasse de fumar, porque, de repente, percebi que o fumo estava prejudicando aquela senhora. Mais uma que me olha com estranheza. “Você é rara, menina!” Não sei o que ela quis dizer. Comprou três pacotes de fumo e foi embora. Eu gosto de observar as pessoas que transitam pela estação, embora na tabacaria meu patrão não deixe. Quase fui demitida no dia em que recomendei àquela senhora que largasse o fumo. Outro dia, numa rua próxima à estação de Santa Cruz, uma criança, moradora de rua, aproximou-se de um homem e pediu: “Me dá um cigarro?” O homem ficou bravo. “Você não acha que ainda é muito criança para fumar, não?” A criança cruzou os braços... “E o senhor não acha que eu sou muito criança, também, para viver na rua?” O homem, rapidamente, andou em direção às escadas da estação e nem olhou para trás. Tenho certeza de que, naquele dia, não foi possível para o homem concentrar-se no trabalho. Eu não consegui parar de pensar naquela cena. Por esse motivo, dentro do trem, muitas ideias começaram a invadir minha mente, e quando senti que minha cabeça ia explodir... Chorei e falei aquilo dos impostos em voz alta.
CENA II
Entra a Autoridade
AUTORIDADE – (Ao público) Não se deixem enganar por esse rostinho de menina dócil! De inocente, essa criatura não tem nada. É a anarquia em pessoa. Há dias vem causando desordem, lançando ideias perigosas. É conhecida entre os passageiros como Santa Joana das ideias. Santa! (À Joana) Nada dirá em sua defesa?
JOANA – Não sei dizer se o que eu sinto está dentro de mim ou dentro do trem.
AUTORIDADE – Pois eu digo quem é você! É uma menina com ideias atrevidas e ousadas! Porém, não passa de uma menina. (Ao público) Alguém gostaria de manifestar qualquer queixa sobre a acusada?
PASSAGEIRO – Eu! Essa garota é um incômodo. Sou passageiro e não aguento mais. Se ela não está no vagão em que estou, há sempre alguém falando sobre as ideias da Santa Joana. Ora, santa? Faça-me o favor! Eu quero chegar a minha casa e descansar. Não quero pensar nesses assuntos que ela fica abordando no vagão. Tenho meu emprego, meus problemas. Minha família precisa de mim. Coitada; ela ainda é jovem, está cheia de ilusões. Acredita que pode mudar o mundo. Certo dia, dentro do vagão, ela leu um poema para todo mundo ouvir. O poema de um tal Brê, Brés...
AUTORIDADE – Brecht!?
PASSAGEIRO – Algo parecido. Dizia que eram “Perguntas de um trabalhador que lê”. Falava da Muralha da China, da Babilônia. Não me interessa quem construiu a Muralha da China!
AUTORIDADE – Joana, olhe para o povo. (Apontando em direção ao público) Pergunte a essas pessoas se elas estão interessadas em suas ideias. Essa gente precisa de moradia, emprego e alimentação. Eis no que consiste o sonho do povo!
JOANA – Isso é o básico! Casa, trabalho e comida não deveriam ser artigos de sonho.
AUTORIDADE – (Ao público) Ouviram? Perceberam a rebeldia? (Imitando Joana) “Casa, trabalho e comida não deveriam ser artigos de sonho”. Esta é a Santa dos passageiros? (À Joana) Aliás, foi você quem criou essa história de santa?
JOANA – Não. Meu patrão, o dono da tabacaria, passou a chamar-me de Santa Joana porque moro em Santa Cruz. Toda vez que eu chegava atrasada, justificava: Moro em Santa Cruz, fica longe. Então, ganhei esse apelido. Sempre percebi uma certa ironia em meu patrão.
A Autoridade desfere um tapa no rosto de Joana.
AUTORIDADE – Nunca subestime uma autoridade!
Destaca-se do público uma mulher aos prantos. É a mãe de Joana.
MÃE – Minha Filha! Quantas vezes eu avisei a você sobre os perigos de desafiar as autoridades? (À Autoridade) Moço, ela é uma boa menina. Sempre estudou, trabalha desde cedo, ajuda com as despesas em casa. Nunca me deu dor de cabeça.
AUTORIDADE – Dona, a senhora mesma acaba de falar que avisou a sua filha sobre os perigos de desafiar as autoridades. Isso prova que sua filha é realmente uma anarquista. Ou seja, ela não é, e nunca foi santa!
JOANA – Mas, Santa é apelido!
AUTORIDADE – Cale a boca!
MÃE – Moço, o senhor é a autoridade. Não vou contrariá-lo. Mas, como mãe da Joana, eu imploro: dê uma chance para minha filha. Eu prometo ao senhor que ela fará as viagens de trem, de Santa Cruz à Central do Brasil, muda. Não abrirá a boca nem para dar informação.
AUTORIDADE – Exatamente, cara senhora. Eu sou a autoridade. Portanto, devo agir de acordo com a Lei, e não com as suas promessas de mãe desesperada.
JOANA – Promessas! Nós, o povo, vivemos cercados de promessas das autoridades.
MÃE – Filha! Não torne pior este caso.
JOANA – Mãe, eu só quero autonomia de pensamento.
AUTORIDADE – É impressionante! O povo nunca está satisfeito. O Governo investe em Educação, Saúde, Segurança, Transporte, Meio Ambiente, entre outros. E o povo a reclamar. Fala ao celular enquanto dirige, desperdiça água lavando carros e calçadas, atravessa a rua fora da faixa de pedestres, quebra as coberturas dos pontos de ônibus, depreda os trens, urina e joga lixo nas ruas, nos rios, e quando vêm os mosquitos e as enchentes, culpa os governantes. (Ao público) Sinceramente, se eu pudesse fuzilaria todos vocês. (Contendo-se) Mas, como estamos num país democrático, e a voz do povo é a voz de Deus... Evoco, neste momento, a Democracia em pessoa.
Entra a Demagogia dançando. Joana interrompe a apresentação.
JOANA – Tire a máscara! Tire essa máscara de democracia e mostre a sua cara, Demagogia.
DEMAGOGIA – Tem todo o direito de manifestar a sua indignação. Estou aqui para defender você.
MÃE – Viu, filha? Ainda há uma oportunidade. Esquece essas ideias malucas.
DEMAGOGIA – (À Joana) O que você falou aos passageiros no trem? Foi algo agressivo?
JOANA – Eu falo sem saber do que se trata. São apenas pensamentos intensos. Brotam em palavras porque já não suportam o isolamento no meu interior.
DEMAGOGIA – (À parte com a Autoridade) Ela é perigosa. Poderíamos condená-la a ficar em casa aos domingos assistindo aos programas de televisão. Logo, essas ideias seriam sucumbidas.
AUTORIDADE – Trata-se de uma agitadora. Não devemos subestimá-la.
DEMAGOGIA – Neste caso, vamos apoiá-la.
AUTORIDADE – Como? Não entendi.
DEMAGOGIA – Ilustre colega, Joana já conquistou a simpatia do povo. Para combatê-la, é necessário que a apoiemos.
AUTORIDADE – Ah! Compreendo.
DEMAGOGIA – Iniciemos, então, o nosso teatro.
AUTORIDADE – Perfeitamente.
Voltam-se para Joana.
DEMAGOGIA – Esta moça está exercendo um direito que lhe é atribuído: dizer o que pensa. Eu, representante da liberdade de expressão, não posso aceitar, muito menos permitir, que uma pessoa de bem como a nossa amiga Joana sofra represálias por parte das autoridades, as quais deveriam assisti-la.
AUTORIDADE – Vossa Excelência está cometendo um equívoco ao julgar as ações de autoridades competentes.
DEMAGOGIA – Vossa Excelência deveria aceitar as críticas. E não as tomar como ofensas.
AUTORIDADE – Vossa Excelência está caindo em contradição. Desde quando a Democracia faz críticas?
DEMAGOGIA – Vossa Excelência, desde quando o criticar é um ato democrático. Toda autoridade deveria saber isso. A propósito, tenho o direito de ter opinião divergente.
AUTORIDADE – Ah! Vossa Excelência está exercendo o direito à discordância. Pois seria mais coerente se Vossa Excelência abandonasse o cargo.
DEMAGOGIA – Vossa Excelência, sinceramente, nem morto renuncio ao cargo!
AUTORIDADE – Vossa Excelência é extremamente eloquente, sabe persuadir. Conseguiu distorcer o assunto. Parabéns!
DEMAGOGIA – Vossa Excelência guarde essa ironia.Vossa Excelência me respeite! Estamos tratando de um assunto sério, de interesse da Nação. É inadmissível qualquer tom de ironia! Vossa Excelência não teme a opinião pública?
AUTORIDADE – Estou-me lixando para a opinião pública!
DEMAGOGIA - O que disse?
AUTORIDADE - E Vossa Excelência vá para o diabo!
DEMAGOGIA – Recolha-se a vossa insignificância!
AUTORIDADE – Vossa Excelência vá para o diabo!
DEMAGOGIA – Recolha-se a vossa insignificância! Recolha-se a vossa insignificância!
MÃE – Por favor! Parem com isso!
JOANA – Inadmissível. Já ouvi essa palavra, só não lembro onde.
MÃE – Foi naquela reportagem, filha. Um jovem participava de uma passeata contra a violência.
JOANA – Ah! Sim. Ele disse: “é inadmissível violência na Zona Sul”.
DEMAGOGIA – (À Joana) Fiz tudo que pude para ajudá-la, mas a senhorita não coopera. A senhorita não sabe conviver com a democracia.
JOANA – Você tem cara de demagogia.
DEMAGOGIA – Mas que inferno! Continua a insistir nessa história.
AUTORIDADE – (Ao Passageiro) E o cidadão, o que acha?
PASSAGEIRO – Mocinha difícil! Aborrece com esse papo de exercer o pensamento. Mas, não acho que Joana seja uma desordeira, uma ameaça. As autoridades nem deveriam se preocupar com o que ela fala nos trens. Afinal, o povo não está interessado. O povo quer acompanhar os campeonatos de futebol, quer curtir o carnaval, o baile funk. Enfim, a gente trabalha o ano inteiro, tem contas para pagar. Se não aproveitar o tempinho que sobra para curtir um lazer, a gente pira. É o que deve ter acontecido com essa moça. Está na cara que ela não é normal! Quer saber? Soltem a garota!
JOANA – Não!
AUTORIDADE – Como? A senhorita não quer ir para casa?
JOANA – Não sem concluir o meu propósito.
DEMAGOGIA – Ah! Eu sabia! Por trás de tanta ingenuidade existe uma Joana politizada. Agora, a mocinha começa a mostrar seu verdadeiro rosto. Quem, aqui, está usando máscara?
JOANA – Não se trata de usar máscara, senhor Demagogia.
DEMAGOGIA – Por favor, senhorita: Democracia.
JOANA – Aqui a democracia só existe para enfeitar vossos discursos, chefes engravatados. Falam o tempo todo em educação, na sua importância. Ora, todos nós sabemos dos benefícios da educação. Só que há tempos queremos vê-la concretizando-se realmente. O meu irmão passou...
MÃE – Joana! Por favor, deixe seu irmão em paz.
AUTORIDADE – O que tem o seu irmão?
JOANA – Ele é o motivo de eu estar aqui.
DEMAGOGIA – Eu sabia que havia outra cabeça manipulando essa história.
AUTORIDADE – Seu irmão pertence a algum partido político? A algum movimento social?
MÃE – Joana!
JOANA – Meu irmão passou onze anos dentro de uma escola pública. Nunca foi reprovado, carregou para casa um diploma que minha mãe exibia com orgulho para todos que nos visitavam.
DEMAGOGIA – O que há de errado nisso?
JOANA – O diploma ficava ali; enquadrado, pendurado na parede da sala como um troféu.
AUTORIDADE – Mas, então, qual é o seu propósito?
JOANA – Meu irmão não era capaz de produzir um texto de cinco linhas. Possuía um vocabulário pobre. Nunca leu um livro. Mas tinha um diploma! Era formado! Melhor dizendo: enquadrado, como o seu diploma.
DEMAGOGIA – Ela está-se fazendo de louca!
JOANA – A única leitura que praticava era no Caderno de Esportes de um jornal barato. Ali, ele colhia informações sobre os seus ídolos milionários do futebol. E sonhava.
PASSAGEIRO – Agora eu tenho certeza de que ela é doida. Qual o problema em ler o Caderno de Esporte?
JOANA – E mesmo estando desempregado, conseguiu dinheiro para ir a um estádio de futebol assistir ao jogo do seu time. Nunca mais voltou.
MÃE – Joana, você sabe o quanto é doloroso para mim. Não me faça sofrer relembrando esse dia. “É inadmissível violência na Zona Sul”, disse o jovem à repórter. Inadmissível, mesmo, é um filho morrer antes da mãe.
AUTORIDADE – Quero aproveitar o ensejo para convidar os caros espectadores a uma reflexão: o povo tem a necessidade de ser vítima. Ou, pelo menos, fazer-se de tal. Todavia, a verdade, a pura realidade é que o povo sempre foi cúmplice. Seus representantes, suas autoridades nada mais são do que espelhos; reflexos de uma sociedade hipócrita, cujo alívio da consciência se apoia no papel de vítima. O que vocês sentem quando morre uma criança no Iraque? (À Joana) Minha filha, a violência nos estádios de futebol é uma realidade mundial. Qual a relação da morte do seu irmão com a agitação que você vem causando dentro dos trens?
JOANA – Meu irmão estava dormindo, como a maioria da população brasileira. Durante a ditadura militar, prevalecia a força bruta. Calavam o povo através de um autoritarismo violento. Hoje, prevalece a lavagem cerebral. Calam as pessoas com lixo cultural. A violência continua, porém, agora, acompanhada da alienação. E a chamada democracia serve de maquiagem.
A Demagogia chama a Autoridade à parte.
DEMAGOGIA – Como não pensamos nisso antes? Não há necessidade de calarmos essa anarquista.
AUTORIDADE – Exato. O que ela pretende é entrar para a História, ser queimada em praça pública. Daí, a atribuição de Santa ao seu nome. Invenção dela, óbvio.
DEMAGOGIA – (Voltando-se para Joana) Face ao equívoco de interpretação por parte das autoridades, ratifico o meu intento: defender você, jovem trabalhadora. E mais uma vez, na história deste país, venceu a democracia.
AUTORIDADE – Volte para casa, Joana.
MÃE – Verdade? Minha filha está liberada?
AUTORIDADE – Sim, minha senhora. Quando tudo isso acabar, ninguém se lembrará de uma só palavra que foi dita aqui. Sua filha não incomoda mais. Só agora eu entendo que Joana não representa nenhuma ameaça. Não neste país.
DEMAGOGIA – Enquanto emprego, moradia e alimento continuarem sendo as únicas preocupações da população, não haverá atenção às ideias de Joana. (À Autoridade) – Muito bem, o ilustre colega deseja fazer as últimas considerações?
AUTORIDADE – Sim, obrigado. Querida Santa Joana das ideias, esqueça a faculdade de Filosofia, faça um curso técnico e, dessa forma, contribua para o nosso quadro social.
PASSAGEIRO – Posso falar?
AUTORIDADE – Seja breve.
PASSAGEIRO – Joana, estude para passar em concurso público. Você garante o seu futuro e não precisa se preocupar com os problemas dos outros.
DEMAGOGIA – Eu sugiro petróleo e gás. Algo mais?
AUTORIDADE – Não, estou satisfeito.
DEMAGOGIA – Então, o que faremos?
AUTORIDADE – Falemos de Reforma Política.
DEMAGOGIA – Excelente proposição.
AUTORIDADE - Depois do recesso, naturalmente.
DEMAGOGIA - Oh!
CENA III
JOANA – Ouço e vejo o pastor pregando o cristianismo; a senhora desesperada e aflita pedindo esmola porque seu marido sofre com um câncer no estômago; a estudante, revoltada, comentando para um colega o fato de não ver utilidade nas aulas de Filosofia; ao passo que ambulantes transitam entre os passageiros, oferecendo suas mercadorias. O trem para na estação; algumas pessoas desembarcam, outras embarcam, e a única preocupação aparente é encontrar uma vaga no assento. Talvez não seja o trem. Talvez, sejam os passageiros dentro dele que me fazem pensar. Observo todos, as expressões pouco variam. Meu Deus! Somos enganados todos os dias, constantemente.
Continua... Na pizzaria.
CENA II
Entra a Autoridade
AUTORIDADE – (Ao público) Não se deixem enganar por esse rostinho de menina dócil! De inocente, essa criatura não tem nada. É a anarquia em pessoa. Há dias vem causando desordem, lançando ideias perigosas. É conhecida entre os passageiros como Santa Joana das ideias. Santa! (À Joana) Nada dirá em sua defesa?
JOANA – Não sei dizer se o que eu sinto está dentro de mim ou dentro do trem.
AUTORIDADE – Pois eu digo quem é você! É uma menina com ideias atrevidas e ousadas! Porém, não passa de uma menina. (Ao público) Alguém gostaria de manifestar qualquer queixa sobre a acusada?
PASSAGEIRO – Eu! Essa garota é um incômodo. Sou passageiro e não aguento mais. Se ela não está no vagão em que estou, há sempre alguém falando sobre as ideias da Santa Joana. Ora, santa? Faça-me o favor! Eu quero chegar a minha casa e descansar. Não quero pensar nesses assuntos que ela fica abordando no vagão. Tenho meu emprego, meus problemas. Minha família precisa de mim. Coitada; ela ainda é jovem, está cheia de ilusões. Acredita que pode mudar o mundo. Certo dia, dentro do vagão, ela leu um poema para todo mundo ouvir. O poema de um tal Brê, Brés...
AUTORIDADE – Brecht!?
PASSAGEIRO – Algo parecido. Dizia que eram “Perguntas de um trabalhador que lê”. Falava da Muralha da China, da Babilônia. Não me interessa quem construiu a Muralha da China!
AUTORIDADE – Joana, olhe para o povo. (Apontando em direção ao público) Pergunte a essas pessoas se elas estão interessadas em suas ideias. Essa gente precisa de moradia, emprego e alimentação. Eis no que consiste o sonho do povo!
JOANA – Isso é o básico! Casa, trabalho e comida não deveriam ser artigos de sonho.
AUTORIDADE – (Ao público) Ouviram? Perceberam a rebeldia? (Imitando Joana) “Casa, trabalho e comida não deveriam ser artigos de sonho”. Esta é a Santa dos passageiros? (À Joana) Aliás, foi você quem criou essa história de santa?
JOANA – Não. Meu patrão, o dono da tabacaria, passou a chamar-me de Santa Joana porque moro em Santa Cruz. Toda vez que eu chegava atrasada, justificava: Moro em Santa Cruz, fica longe. Então, ganhei esse apelido. Sempre percebi uma certa ironia em meu patrão.
A Autoridade desfere um tapa no rosto de Joana.
AUTORIDADE – Nunca subestime uma autoridade!
Destaca-se do público uma mulher aos prantos. É a mãe de Joana.
MÃE – Minha Filha! Quantas vezes eu avisei a você sobre os perigos de desafiar as autoridades? (À Autoridade) Moço, ela é uma boa menina. Sempre estudou, trabalha desde cedo, ajuda com as despesas em casa. Nunca me deu dor de cabeça.
AUTORIDADE – Dona, a senhora mesma acaba de falar que avisou a sua filha sobre os perigos de desafiar as autoridades. Isso prova que sua filha é realmente uma anarquista. Ou seja, ela não é, e nunca foi santa!
JOANA – Mas, Santa é apelido!
AUTORIDADE – Cale a boca!
MÃE – Moço, o senhor é a autoridade. Não vou contrariá-lo. Mas, como mãe da Joana, eu imploro: dê uma chance para minha filha. Eu prometo ao senhor que ela fará as viagens de trem, de Santa Cruz à Central do Brasil, muda. Não abrirá a boca nem para dar informação.
AUTORIDADE – Exatamente, cara senhora. Eu sou a autoridade. Portanto, devo agir de acordo com a Lei, e não com as suas promessas de mãe desesperada.
JOANA – Promessas! Nós, o povo, vivemos cercados de promessas das autoridades.
MÃE – Filha! Não torne pior este caso.
JOANA – Mãe, eu só quero autonomia de pensamento.
AUTORIDADE – É impressionante! O povo nunca está satisfeito. O Governo investe em Educação, Saúde, Segurança, Transporte, Meio Ambiente, entre outros. E o povo a reclamar. Fala ao celular enquanto dirige, desperdiça água lavando carros e calçadas, atravessa a rua fora da faixa de pedestres, quebra as coberturas dos pontos de ônibus, depreda os trens, urina e joga lixo nas ruas, nos rios, e quando vêm os mosquitos e as enchentes, culpa os governantes. (Ao público) Sinceramente, se eu pudesse fuzilaria todos vocês. (Contendo-se) Mas, como estamos num país democrático, e a voz do povo é a voz de Deus... Evoco, neste momento, a Democracia em pessoa.
Entra a Demagogia dançando. Joana interrompe a apresentação.
JOANA – Tire a máscara! Tire essa máscara de democracia e mostre a sua cara, Demagogia.
DEMAGOGIA – Tem todo o direito de manifestar a sua indignação. Estou aqui para defender você.
MÃE – Viu, filha? Ainda há uma oportunidade. Esquece essas ideias malucas.
DEMAGOGIA – (À Joana) O que você falou aos passageiros no trem? Foi algo agressivo?
JOANA – Eu falo sem saber do que se trata. São apenas pensamentos intensos. Brotam em palavras porque já não suportam o isolamento no meu interior.
DEMAGOGIA – (À parte com a Autoridade) Ela é perigosa. Poderíamos condená-la a ficar em casa aos domingos assistindo aos programas de televisão. Logo, essas ideias seriam sucumbidas.
AUTORIDADE – Trata-se de uma agitadora. Não devemos subestimá-la.
DEMAGOGIA – Neste caso, vamos apoiá-la.
AUTORIDADE – Como? Não entendi.
DEMAGOGIA – Ilustre colega, Joana já conquistou a simpatia do povo. Para combatê-la, é necessário que a apoiemos.
AUTORIDADE – Ah! Compreendo.
DEMAGOGIA – Iniciemos, então, o nosso teatro.
AUTORIDADE – Perfeitamente.
Voltam-se para Joana.
DEMAGOGIA – Esta moça está exercendo um direito que lhe é atribuído: dizer o que pensa. Eu, representante da liberdade de expressão, não posso aceitar, muito menos permitir, que uma pessoa de bem como a nossa amiga Joana sofra represálias por parte das autoridades, as quais deveriam assisti-la.
AUTORIDADE – Vossa Excelência está cometendo um equívoco ao julgar as ações de autoridades competentes.
DEMAGOGIA – Vossa Excelência deveria aceitar as críticas. E não as tomar como ofensas.
AUTORIDADE – Vossa Excelência está caindo em contradição. Desde quando a Democracia faz críticas?
DEMAGOGIA – Vossa Excelência, desde quando o criticar é um ato democrático. Toda autoridade deveria saber isso. A propósito, tenho o direito de ter opinião divergente.
AUTORIDADE – Ah! Vossa Excelência está exercendo o direito à discordância. Pois seria mais coerente se Vossa Excelência abandonasse o cargo.
DEMAGOGIA – Vossa Excelência, sinceramente, nem morto renuncio ao cargo!
AUTORIDADE – Vossa Excelência é extremamente eloquente, sabe persuadir. Conseguiu distorcer o assunto. Parabéns!
DEMAGOGIA – Vossa Excelência guarde essa ironia.Vossa Excelência me respeite! Estamos tratando de um assunto sério, de interesse da Nação. É inadmissível qualquer tom de ironia! Vossa Excelência não teme a opinião pública?
AUTORIDADE – Estou-me lixando para a opinião pública!
DEMAGOGIA - O que disse?
AUTORIDADE - E Vossa Excelência vá para o diabo!
DEMAGOGIA – Recolha-se a vossa insignificância!
AUTORIDADE – Vossa Excelência vá para o diabo!
DEMAGOGIA – Recolha-se a vossa insignificância! Recolha-se a vossa insignificância!
MÃE – Por favor! Parem com isso!
JOANA – Inadmissível. Já ouvi essa palavra, só não lembro onde.
MÃE – Foi naquela reportagem, filha. Um jovem participava de uma passeata contra a violência.
JOANA – Ah! Sim. Ele disse: “é inadmissível violência na Zona Sul”.
DEMAGOGIA – (À Joana) Fiz tudo que pude para ajudá-la, mas a senhorita não coopera. A senhorita não sabe conviver com a democracia.
JOANA – Você tem cara de demagogia.
DEMAGOGIA – Mas que inferno! Continua a insistir nessa história.
AUTORIDADE – (Ao Passageiro) E o cidadão, o que acha?
PASSAGEIRO – Mocinha difícil! Aborrece com esse papo de exercer o pensamento. Mas, não acho que Joana seja uma desordeira, uma ameaça. As autoridades nem deveriam se preocupar com o que ela fala nos trens. Afinal, o povo não está interessado. O povo quer acompanhar os campeonatos de futebol, quer curtir o carnaval, o baile funk. Enfim, a gente trabalha o ano inteiro, tem contas para pagar. Se não aproveitar o tempinho que sobra para curtir um lazer, a gente pira. É o que deve ter acontecido com essa moça. Está na cara que ela não é normal! Quer saber? Soltem a garota!
JOANA – Não!
AUTORIDADE – Como? A senhorita não quer ir para casa?
JOANA – Não sem concluir o meu propósito.
DEMAGOGIA – Ah! Eu sabia! Por trás de tanta ingenuidade existe uma Joana politizada. Agora, a mocinha começa a mostrar seu verdadeiro rosto. Quem, aqui, está usando máscara?
JOANA – Não se trata de usar máscara, senhor Demagogia.
DEMAGOGIA – Por favor, senhorita: Democracia.
JOANA – Aqui a democracia só existe para enfeitar vossos discursos, chefes engravatados. Falam o tempo todo em educação, na sua importância. Ora, todos nós sabemos dos benefícios da educação. Só que há tempos queremos vê-la concretizando-se realmente. O meu irmão passou...
MÃE – Joana! Por favor, deixe seu irmão em paz.
AUTORIDADE – O que tem o seu irmão?
JOANA – Ele é o motivo de eu estar aqui.
DEMAGOGIA – Eu sabia que havia outra cabeça manipulando essa história.
AUTORIDADE – Seu irmão pertence a algum partido político? A algum movimento social?
MÃE – Joana!
JOANA – Meu irmão passou onze anos dentro de uma escola pública. Nunca foi reprovado, carregou para casa um diploma que minha mãe exibia com orgulho para todos que nos visitavam.
DEMAGOGIA – O que há de errado nisso?
JOANA – O diploma ficava ali; enquadrado, pendurado na parede da sala como um troféu.
AUTORIDADE – Mas, então, qual é o seu propósito?
JOANA – Meu irmão não era capaz de produzir um texto de cinco linhas. Possuía um vocabulário pobre. Nunca leu um livro. Mas tinha um diploma! Era formado! Melhor dizendo: enquadrado, como o seu diploma.
DEMAGOGIA – Ela está-se fazendo de louca!
JOANA – A única leitura que praticava era no Caderno de Esportes de um jornal barato. Ali, ele colhia informações sobre os seus ídolos milionários do futebol. E sonhava.
PASSAGEIRO – Agora eu tenho certeza de que ela é doida. Qual o problema em ler o Caderno de Esporte?
JOANA – E mesmo estando desempregado, conseguiu dinheiro para ir a um estádio de futebol assistir ao jogo do seu time. Nunca mais voltou.
MÃE – Joana, você sabe o quanto é doloroso para mim. Não me faça sofrer relembrando esse dia. “É inadmissível violência na Zona Sul”, disse o jovem à repórter. Inadmissível, mesmo, é um filho morrer antes da mãe.
AUTORIDADE – Quero aproveitar o ensejo para convidar os caros espectadores a uma reflexão: o povo tem a necessidade de ser vítima. Ou, pelo menos, fazer-se de tal. Todavia, a verdade, a pura realidade é que o povo sempre foi cúmplice. Seus representantes, suas autoridades nada mais são do que espelhos; reflexos de uma sociedade hipócrita, cujo alívio da consciência se apoia no papel de vítima. O que vocês sentem quando morre uma criança no Iraque? (À Joana) Minha filha, a violência nos estádios de futebol é uma realidade mundial. Qual a relação da morte do seu irmão com a agitação que você vem causando dentro dos trens?
JOANA – Meu irmão estava dormindo, como a maioria da população brasileira. Durante a ditadura militar, prevalecia a força bruta. Calavam o povo através de um autoritarismo violento. Hoje, prevalece a lavagem cerebral. Calam as pessoas com lixo cultural. A violência continua, porém, agora, acompanhada da alienação. E a chamada democracia serve de maquiagem.
A Demagogia chama a Autoridade à parte.
DEMAGOGIA – Como não pensamos nisso antes? Não há necessidade de calarmos essa anarquista.
AUTORIDADE – Exato. O que ela pretende é entrar para a História, ser queimada em praça pública. Daí, a atribuição de Santa ao seu nome. Invenção dela, óbvio.
DEMAGOGIA – (Voltando-se para Joana) Face ao equívoco de interpretação por parte das autoridades, ratifico o meu intento: defender você, jovem trabalhadora. E mais uma vez, na história deste país, venceu a democracia.
AUTORIDADE – Volte para casa, Joana.
MÃE – Verdade? Minha filha está liberada?
AUTORIDADE – Sim, minha senhora. Quando tudo isso acabar, ninguém se lembrará de uma só palavra que foi dita aqui. Sua filha não incomoda mais. Só agora eu entendo que Joana não representa nenhuma ameaça. Não neste país.
DEMAGOGIA – Enquanto emprego, moradia e alimento continuarem sendo as únicas preocupações da população, não haverá atenção às ideias de Joana. (À Autoridade) – Muito bem, o ilustre colega deseja fazer as últimas considerações?
AUTORIDADE – Sim, obrigado. Querida Santa Joana das ideias, esqueça a faculdade de Filosofia, faça um curso técnico e, dessa forma, contribua para o nosso quadro social.
PASSAGEIRO – Posso falar?
AUTORIDADE – Seja breve.
PASSAGEIRO – Joana, estude para passar em concurso público. Você garante o seu futuro e não precisa se preocupar com os problemas dos outros.
DEMAGOGIA – Eu sugiro petróleo e gás. Algo mais?
AUTORIDADE – Não, estou satisfeito.
DEMAGOGIA – Então, o que faremos?
AUTORIDADE – Falemos de Reforma Política.
DEMAGOGIA – Excelente proposição.
AUTORIDADE - Depois do recesso, naturalmente.
DEMAGOGIA - Oh!
CENA III
JOANA – Ouço e vejo o pastor pregando o cristianismo; a senhora desesperada e aflita pedindo esmola porque seu marido sofre com um câncer no estômago; a estudante, revoltada, comentando para um colega o fato de não ver utilidade nas aulas de Filosofia; ao passo que ambulantes transitam entre os passageiros, oferecendo suas mercadorias. O trem para na estação; algumas pessoas desembarcam, outras embarcam, e a única preocupação aparente é encontrar uma vaga no assento. Talvez não seja o trem. Talvez, sejam os passageiros dentro dele que me fazem pensar. Observo todos, as expressões pouco variam. Meu Deus! Somos enganados todos os dias, constantemente.
Continua... Na pizzaria.
4 comentários:
Caro Edwaldo
Quero lhe agradecer pela visita e por sua extrema coerência ao se colocar como um seguidor do meu blog. Tenho que lhe agradecer, pois, são bem raros os meus leitores brasileiros, talvez porque ainda não tenham compreenido que nosso destino está entrelaçado com os da América Latina.
Gostei da peça, só não ouso fazer comentário algum, porque receio fazer uma leitura bem restrita ao meu universo cotidiano- política, economia e comunicação. De qualquer modo gostei bastante.
Um abraço e grato
Bem o que dizer a você? que essa peça acrescentou muito e ajudou me, a ser o que sou hoje, já estou no meu segundo trabalho no cinema e devo muito a vc só resta lhe dizer muito obrigado.
Foram 2 anos em sua companhia e eu aprendir bastante gostaria de voltar a trabalhar ao seu lado, fico feliz por vc espero que vc esteja concluindo uma nova peça. sem mais Parabéns pelo seu trabalho.
Bem o que dizer a você? que essa peça acrescentou muito e ajudou me, a ser o que sou hoje, já estou no meu segundo trabalho no cinema e devo muito a vc só resta lhe dizer muito obrigado.
Foram 2 anos em sua companhia e eu aprendir bastante gostaria de voltar a trabalhar ao seu lado, fico feliz por vc espero que vc esteja concluindo uma nova peça. sem mais Parabéns pelo seu trabalho.Célia Dolores
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