Amo meus filhos! Disse Mariana ao marido em tom de ameaça. A propósito, é assim que ela vem-se dirigindo a Antônio nos últimos três meses. Este, em forma de protesto, pega a baleeira e traça o rumo a mar aberto. Amar aberta, declarada, profundamente. Eis a relação Antônio – mar – pesca; o que causa os ciúmes e, principalmente, a intriga da mulher. Mariana não consegue entender o porquê de Antônio passar tanto tempo em águas salgadas. E quando permanece em terra, opta ele por costurar rede à sombra da amendoeira da praia, fitando o horizonte. Seu olhar parece transpassar as ondas que se quebram insistentemente perto da areia fina. Que homem mais estranho! Esse infeliz passa dias e dias embarcado. Parece enfeitiçado pelo mar! Deveria tudo virar sertão! Mariana costuma rogar em altos brados ao vento cujo movimento no sentido mar-terra abafa-lhe o ímpeto. Espécie de mulher solitária, desejosa. O distanciamento do homem causa essa inquietação. A angústia aumenta à medida que a espera se prolonga. Esperar. Espera, vai passar. Espero. Vai mudar. Nada. Da janela do quarto, Mariana observa como Antônio toca na rede. Mãos brutas e ao mesmo tempo ágeis ao consertar os buracos deixados na rede por uma arraia. Os de Mariana, dentro do peito, cada vez maiores. Então, de repente, deseja estar no lugar da rede. Ser tocada ultimamente por outrem, senão por ela mesma, é raridade. Gostaria que o mar secasse. Como lutar com algo tão poderoso? Impossível! Gostaria mesmo que secasse! Quem? O mar ou Antônio? Os dois. Só assim a vingança seria completa. Olhou para o oceano; desculpou-se. Se não posso contigo, junto-me a ti.
Comecei a escrever essa história a partir de relatos de antigos moradores da Ponta Negra, praia vizinha da que viveu Mariana. Segundo esses caiçaras, a moça e sua família foram os únicos moradores da praia dos Antigos; no tempo em que a cidade de Paraty ainda vivia da pesca e da banana. Voltemos a ela. Passados alguns poucos dias, Antônio se apressa em preparar a baleeira para a pesca. Uma alegria só! Só, Mariana alimenta suas mágoas. Como de costume, faz as orações diante do esposo e da embarcação. O beijo, agora na testa da esposa, cumpre o ritual da saída para o mar. Três! Três dias. Espera. Três dias. Mariana nada responde. No terceiro amanhecer da espera, surge um ponto contornando a ilhota do Cairuçu das Pedras. É ele. Ela é sabida; e do covo, jogado à beira da costeira na noite passada, retira duas garoupas e um badejo. Três peixes! Número insistente esse! Deu banho nos dois filhos. Vestiu-lhes as roupas mais novas; guardadas no baú desde a última vez que Antônio permaneceu em terra por mais de uma semana. Serviu-lhes o almoço. O peixe, já limpo e temperado, e a banana verde aguardam a chegada do pescador para irem ao fogo. Mariana é zelosa. Serenamente, passa o café com caldo de cana. Identidade local. Tudo ao gosto do marido. Este chega, percebe a casa, os filhos, todos arrumados. Pela primeira vez, em quase quatro meses, olha para a mulher. Vestido branco e singelo delineando o corpo desprovido das peças íntimas. Intimidado, desconfia da plácida esposa. Mulher é o cão! Ao sair do banho, senta-se à mesa para saborear o azul-marinho. Mariana desfila do fogão à lenha para a bica d’água, de onde fita o esposo que a deseja como nunca. E, como planejara sua vingança, segue desfilando em direção ao mar. Foi a ele que jurou se entregar, por não poder enfrentá-lo. Parada diante das ondas deixa o vestido cair na areia. Ao longe, os dois filhos observam a nudez da mãe envolta pelas ondas agitadas. Antônio, de cabeça abaixada, chupa a espinha da garoupa pensando nas ancas de Mariana.
Luzia, quase solitária, única moradora da ilhota do Cairuçu das Pedras, ao saber do ato de Mariana, atira-se da costeira do lado bravo às ondas. Talvez por remorso. No entanto, é certo que temia o mar. Luzia pagou com a própria vida àquele que levara a culpa. Seu corpo veio encalhar na praia, de bruços, com os braços estendidos em direção à casa de Antônio. Como quem cobra a cumplicidade. Com efeito, Antônio também pensava na possibilidade de desculpar-se com as águas. Porém, de acordo com os antigos, faltou-lhe a coragem que nunca teve. Por isso, nunca mais deixou a terra firme. Passou a fazer os reparos nas redes que os filhos, então crescidos, trazem do mar com garoupas, vermelhos, badejos, tiúnas, marimbás, entre tantos outros peixes de costeira. Contam os antigos que Mariana, levada por uma corrente marítima, foi resgatada em alto mar por um barco de pesca de Paranaguá. Dizem, ainda, que lá viveu por muito tempo, amancebada com um pescador da cidade paranaense. Prefiro acreditar que ela morreu no mar.
1 Covo [ó] – Cesto usado na pesca artesanal. Armadilha para peixes que habitam a região costeira.
2 Azul-Marinho - Peixe cozido com pirão de banana verde. Comida típica caiçara.
Comecei a escrever essa história a partir de relatos de antigos moradores da Ponta Negra, praia vizinha da que viveu Mariana. Segundo esses caiçaras, a moça e sua família foram os únicos moradores da praia dos Antigos; no tempo em que a cidade de Paraty ainda vivia da pesca e da banana. Voltemos a ela. Passados alguns poucos dias, Antônio se apressa em preparar a baleeira para a pesca. Uma alegria só! Só, Mariana alimenta suas mágoas. Como de costume, faz as orações diante do esposo e da embarcação. O beijo, agora na testa da esposa, cumpre o ritual da saída para o mar. Três! Três dias. Espera. Três dias. Mariana nada responde. No terceiro amanhecer da espera, surge um ponto contornando a ilhota do Cairuçu das Pedras. É ele. Ela é sabida; e do covo, jogado à beira da costeira na noite passada, retira duas garoupas e um badejo. Três peixes! Número insistente esse! Deu banho nos dois filhos. Vestiu-lhes as roupas mais novas; guardadas no baú desde a última vez que Antônio permaneceu em terra por mais de uma semana. Serviu-lhes o almoço. O peixe, já limpo e temperado, e a banana verde aguardam a chegada do pescador para irem ao fogo. Mariana é zelosa. Serenamente, passa o café com caldo de cana. Identidade local. Tudo ao gosto do marido. Este chega, percebe a casa, os filhos, todos arrumados. Pela primeira vez, em quase quatro meses, olha para a mulher. Vestido branco e singelo delineando o corpo desprovido das peças íntimas. Intimidado, desconfia da plácida esposa. Mulher é o cão! Ao sair do banho, senta-se à mesa para saborear o azul-marinho. Mariana desfila do fogão à lenha para a bica d’água, de onde fita o esposo que a deseja como nunca. E, como planejara sua vingança, segue desfilando em direção ao mar. Foi a ele que jurou se entregar, por não poder enfrentá-lo. Parada diante das ondas deixa o vestido cair na areia. Ao longe, os dois filhos observam a nudez da mãe envolta pelas ondas agitadas. Antônio, de cabeça abaixada, chupa a espinha da garoupa pensando nas ancas de Mariana.
Luzia, quase solitária, única moradora da ilhota do Cairuçu das Pedras, ao saber do ato de Mariana, atira-se da costeira do lado bravo às ondas. Talvez por remorso. No entanto, é certo que temia o mar. Luzia pagou com a própria vida àquele que levara a culpa. Seu corpo veio encalhar na praia, de bruços, com os braços estendidos em direção à casa de Antônio. Como quem cobra a cumplicidade. Com efeito, Antônio também pensava na possibilidade de desculpar-se com as águas. Porém, de acordo com os antigos, faltou-lhe a coragem que nunca teve. Por isso, nunca mais deixou a terra firme. Passou a fazer os reparos nas redes que os filhos, então crescidos, trazem do mar com garoupas, vermelhos, badejos, tiúnas, marimbás, entre tantos outros peixes de costeira. Contam os antigos que Mariana, levada por uma corrente marítima, foi resgatada em alto mar por um barco de pesca de Paranaguá. Dizem, ainda, que lá viveu por muito tempo, amancebada com um pescador da cidade paranaense. Prefiro acreditar que ela morreu no mar.
1 Covo [ó] – Cesto usado na pesca artesanal. Armadilha para peixes que habitam a região costeira.
2 Azul-Marinho - Peixe cozido com pirão de banana verde. Comida típica caiçara.
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